terça-feira, 9 de fevereiro de 2016

TARDE

Era verão e chovia.
A nostalgia invadiu-a pelas narinas.
O atrito dos corpos foi relembrado pela pele.
A lingua reviveu o sabor do suor
Sorvido no lúdico passeio pelo corpo.
Rostos tensos e absortos
Pela busca do prazer total
Voltaram como flashs sombrios.
Concentração no ritmo.
Mistério coberto de névoas e sensações.
A tarde anoiteceu cúmplice dos instantes.
Os instantes anoiteceram na alma
Na esperança de aflorarem mais uma vez
Em uma nova tarde...
Será tarde?

domingo, 7 de fevereiro de 2016

PROTEÇÃO

Do guarda-chuva amarelo
Caíram corações coloridos.
Animou-se para enfrentar a tempestade
Cinzenta.

domingo, 24 de janeiro de 2016

EGOÍSTA

Mantinha a alma prisioneira
No corpo remendado.
A cada impacto, 
Apressava-se a cerzir, costurar, remendar.
Tinha pavor da ideia de perdê-la,
Sabia que seria para sempre.
Não aguentaria seguir sem ela.
A tristeza que se impingia
Só teria sentido
Com o sofrimento dela também.

domingo, 17 de janeiro de 2016

IMAGEM

Tinha um balão cheio de si.
Ali guardava seus sonhos, desejos,
Angústias e desilusões.
Desfilava, todos os dias,
Na frente de todos,
Com ele, grande, inflado, colorido,
Flutuando sob sua cabeça
Preso apenas pelo fino
Cordão dourado.

quinta-feira, 14 de janeiro de 2016

ENIGMA

O problema.
Não podia viver sem ele.
Qualquer solução,
Alguma solução,
Uma tentativa de solução,
A solução,
Não serviam,
Não conseguiria viver sem
O problema.

segunda-feira, 4 de janeiro de 2016

IMPERTINÊNCIAS

Passados impertinentes
Andam sozinhos nas ruas
Desafiando o presente
Que os pensa além das luas.

Luas de suspiros,
Luas de muitos ais,
Luas de aguaceiros
De tardes quentes demais.

Muitos anos se passaram
E a sensação retorna fresca,
Como foi doce o momento
De intensidade gigantesca.

Um jovem, pele macia,
Uma mulher, plena e intensa,
Colorida lembrança
Deixa respiração suspensa.

Passado vai e passa,
Com tamanha desfaçatez
Sorri, com desdém, e sai
Quer toda cena outra vez!

domingo, 20 de dezembro de 2015

JURA

Estava lotada de cansaços.
Ansiava viver do seu modo,
Mas, quando menos percebia,
Esforçava-se a agradar os outros.
E os outros?
Nunca se contentavam, é claro.
Um dia virou nuvem 
E, disfarçada de vento,
Fugiu para atrás da colina.
Que se contentassem, ou não,
Sozinhos.
Estava farta!
Nada mais iria lhe atrapalhar!
Jurou a si própria!

segunda-feira, 14 de dezembro de 2015

INCOMPREENSÃO

Incompreendia a incompreensão
De todos acerca de sua pessoa.
Era clara, transparente e volátil,
Mas perfeitamente táctil.
Falava, sempre da forma mais ponderada.
Palavras, ainda que não unívocas,
Possuíam significados bem delimitados
Capazes de apaziguar a tormenta.
Sabia de seus dotes com a certeza dos céticos.
Incompreendia a incompreensão 
De todos acerca de sua pessoa.
Será que a clareza ofusca?
Será que o nevoeiro dos olhos alheios impede?
Incompreendia a incompreensão
De todos acerca de sua pessoa.

sábado, 12 de dezembro de 2015

PRESA

Pertencia.
Almejava pertencer
A si própria,
Mas pelo visto,
A carta de alforria
Iria tardar.
Enquanto esperava,
Tecia os dias, meses, anos...
Na esperança de que
Ao findar a rede
O prêmio final alcançasse...
Por ora seguia.
Pertencia.

quarta-feira, 2 de dezembro de 2015

CONFIANTE

Olhava os lados negros das nuvens.
Carregadas de tempestades
A ameaçavam sem cessar.
Raios e trovões prenunciavam
Os acontecimentos.
Ventos repletos de areia e folhas
A impediam de ver com clareza
Não se intimidaria,
Na certeza de que havia um sol
Por detrás de tudo isso.
Dançou comemorando a caída
Das primeiras gotas de chuva.

sábado, 28 de novembro de 2015

quinta-feira, 26 de novembro de 2015

BALÕES

Cercada por balões,
Disfarçafa-se de alegria.
O colorido, flutuante de gás hélio,
Impedia que suas lágrimas refletissem
No brilho do sol.
Queria ser a fantasia que criava.
Desejava que a transmutação
Impusesse-se de fora para dentro.
Tentava, com frenesi,
A mudança exógena.
Uma hora aconteceria, confiava.
Seguiu no choro,
Abrilhantado pelo sorriso
De que tudo começaria a mudar,
Em breve, muito em breve.

sábado, 21 de novembro de 2015

BLARGH!

Entre o belo e o feio,
Sentiu-se normal.
Entre o magro e o gordo,
Imaginou-se média.
Entre o ardente e o frígido,
Viu-se morna.
Entre o explosivo e o apático,
Entendeu-se controlada.
Era a personificação
Do meio-termo.
Insuportável!

quarta-feira, 18 de novembro de 2015

SAUDADE

Do canto distante
Ouvia risadas do passado.
Em um túnel caleidoscópio
Decidiu fugir do real.
Embretada na floresta de sonhos
Pisava, levemente,
Sobre o chão de folhas secas.
O perfume da chuva, a anunciava.
Na antiga clareira, 
Ao pé da grande árvore sentou-se,
Como sempre o fizera.
Sentiu-se acolhida pelo infinito.
O amor ainda estava materializado ali,
Forte e fresco.
Acalentada pelo tempo,
Chorou a saudade 
Que ia partir.

segunda-feira, 16 de novembro de 2015

BATIDAS

Na forma de um véu
Deslocou-se sobre o oceano
Na esperança de vê-lo.
Durante o percurso,
Recolheu pequenos mimos.
Uma gota do mar aqui, um perfume do vento ali.
Ia determinada a encontrá-lo,
Houvesse o que houvesse.
Voou dias escaldantes 
E noites frias.
Viu luzes e escuridão.
Guiava-se apenas pelo som do coração dele
Ainda preso aos seus ouvidos.
Muito tempo depois chegou à praia.
Cansada, feliz, em êxtase.
Onde ele estaria?
Ansiosa, transmutou-se novamente em mulher.
Andou por todos os cantos e adormeceu
Na areia cálida.
Ele chegaria em breve.
Sim, ele chegaria,
Ouvia as batidas cada vez mais próximas...

quinta-feira, 12 de novembro de 2015

JOGO

Um dia, os sonhos curiosos
Vieram espiar a realidade.
Divertiam-se com seus tropeços,
Terrestres e falhos.
Pairavam fugazes no cenário bifronte:
Etéreo na parte superior 
E sólido junto a base.
A realidade, 
Percebendo-os de canto de olho,
Ansiava alcançá-los, 
Quando menos esperassem,
Assim fazia-se de tonta,
Totalmente alheia à situação.
Não tolerando tamanho desdém,
Alguns sonhos, mais afoitos,
Arriscavam-se em rasantes
Momento em que restavam 
Eternamente capturados.
E, neste jogo de forças,
A vida seguia...

quarta-feira, 11 de novembro de 2015

HISTORINHA

A difícil arte de sentar à janela e ver o tempo passar, exercia com perfeição. Ora atrás das cortinas, ora à frente, brincava de luzes e sombras com os minutos e horas. Divertia-se quando o tempo sentia suas ausências, enciumava-se, quando desprezava suas presenças. Admirava-o, sobretudo. Altivo e imponente, capitaneando ventos, sois, chuvas, vidas e mortes. Este, por sua vez, sabia que somente ela o conhecia com requintes de detalhes. Certo dia, parou o mundo para que ela saísse de seu posto e desaparecesse sob seu manto. Melhor tê-la por perto. Melhor assim... E a janela? Bem, a janela nunca se conformou...

sábado, 7 de novembro de 2015

REALIZADA

Pequena, ínfima, minúscula....
Imperceptível, como sempre
Ansiara ser.
É.

DIFICULDADES

Sentia-se vestindo a capa
Encharcada de lágrimas estocadas.
O pesado abrigo causava-lhe 
O frio sombrio do intenso inverno.
Difícil andar, difícil ficar.
Difícil ficar, difícil andar.
Difícil...

domingo, 19 de julho de 2015

LIMPEZA

No raio do olhar
Lançou o dardo mágico.
Imediatamente, 
Após ultrapassar a retina,
Partiu em direção ao peito
Devastando tudo que encontrava
Pela frente.
Instalado, perigosamente nas entranhas
Começou a consumi-las
Como se um cupim ávido fosse,
Não deixando qualquer vestígio
Do que outrora ali havia habitado.
Tarefa concluída, auto-explodiu-se,
Em milionésimas partículas adstringentes,
Que fecharam-lhe todos os poros.
Refeita do fim, partiu ao início,
Limpa e nova para começar
O novo acúmulo,
Das sempre difíceis,
Futuras lembranças.

domingo, 5 de julho de 2015

CONTRÁRIO

No mundo do contrário era triste.
Morria a cada nascer do sol
No desânimo do pessimismo.
Exercitava a infelicidade
Em todas as lágrimas.
No mundo do contrário,
Caminhava para trás
Em plena desesperança 
De encontrar a passagem
Há muito perdida,
Depois da decisão, 
Até então definitiva,
Do ingresso derradeiro.

terça-feira, 26 de maio de 2015

ESTRELA

A estrela amanheceu
E fez-se sol.
Plenamente absoluta
Reinava em si bemol.
Entoava melodias,
Enternecendo o horizonte
Prenhe de expectativas
Entorpecidas nos seus montes.
A estrela adormeceu
E desfez-se o encanto.
Aconchegando no regaço
Ao som do terno acalanto
Todos aqueles que sonharam,
Um dia, estarem sob seu manto.

sábado, 23 de maio de 2015

CAMINHO

Na poça d'água via-se refletida.
Linda!
Acreditando na fresca imagem
Ganhou coragem para seguir.
Enxugou os olhos.
Recompôs-se do pranto
E sorriu para o horizonte,
Próximo amante a enternecer.

quinta-feira, 14 de maio de 2015

IDEIAS

Na vontade de rever o nascer do sol,
Distanciava-se cada vez mais
Da sua marca,
Previamente estabelecida,
Por aqueles que comandavam a cena.
Tantos foram os recuos,
Que, quando deu por si,
Já fazia parte de um outro contexto.
Entusiasmada, no novo palco,
Iniciou a história pelo seu contrário.
Quem sabe começando do fim,
Poderia traçar um começo mais interessante?

sábado, 9 de maio de 2015

INVASIVA

Transbordava.
Tinha o difícil problema
De não caber em si.
A alegria lhe escorria
Em fitas coloridas 
Pela boca.
A tristeza, em rios escuros
Pelos olhos.
A raiva,
Em faíscas vibrantes
Pelo corpo todo.
A paixão
Em ondas cintilantes
Que alcançava todos ambientes
Embalada pelo som de sua
Gargalhada cristalina.

sábado, 2 de maio de 2015

CADEIRA

Dedicava-se, intensamente, ao desapego.
Pensava, por todos os ângulos,
Em como fugir daquela situação,
Incômoda, cansativa.
Não via caminhos,
Não queria ver.
Um dia teria que decidir
Entre as duas opções prováveis:
Ir ou ficar.
Enquanto isso,
Chocada com sua falta de iniciativa,
Exercitava o triste jogo
De pena de si própria
Acomodada na sua cadeira
De alto espaldar.

quinta-feira, 30 de abril de 2015

NONSENSE

Do alto das ideias criativas
Desenhou um sapo alado.
Pintou, cuidadosamente, de azul.
Recortou milimetricamente.
Deu-lhe um beijo
No mesmo instante 
Que o largava pela janela.
Materializado, no passe de mágica,
O príncipe, incrédulo,
Estatelou-se no chão,
Pois não percebeu que tinha asas.
Pronto, pensou.
Sem riscos de cair no antigo conto de fadas
Voou em direção ao novo destino,
Além da linha do horizonte
Onde se encontraria com
O almejado pote de ouro.
Afinal, era uma bruxa.

domingo, 26 de abril de 2015

FINALIZE

Com a alma
Despudoradamente desnuda,
Desfilava entre as hordas
Aos gritos de "viva!".
Ia sem pressa,
Aproveitando cada olhar,
Cada indagação a respeito
Do significado da cena.
...
...
...
(Finalize, eu deixo...)
; )

sexta-feira, 24 de abril de 2015

GATA

Macia, desliza nas entrelinhas.
Rola e engana
A quem se desconcentra
Com sua manha.
Seduz, sempre,
Na promessa do nada utópico.
Ri de soslaio
Diante da boquiaberta
Presa, presa...

quarta-feira, 22 de abril de 2015

TRISTE

Queria morrer,
Havia decidido há algum tempo.
Fechou os olhos
E instalou-se em estado de cegueira.
Parou de andar,
Conduzindo-se a um estado inerte.
Não quis mais comer,
Dividindo seus dias com a inanição.
Assim ficou, quieta, a espera,
Envolta na névoa de orações,
Freneticamente repetidas,
Por aqueles 
Que a amavam 
De verdade.

sábado, 18 de abril de 2015

ESCADAS

As escadas se confundiam.
Nunca sabia se partia ou chegava.
Subia ao descer.
Descia a subida.
Degraus materializavam-se
A medida que sumiam.
Coisa estranhas aconteciam
Naquela tarde.
Agarrou-se ao corrimão
Para entender os desenhos.
Queria retornar ao ponto inicial.
Almejava alcançar o final.
Conseguiria, com certeza.
Precisava ter calma
E concentração.
Só isso.
Calma
Con cen tra ção.

domingo, 5 de abril de 2015

INVISÍVEL

Não se sentia amada.
Levava a vida sempre em segundo plano.
Tudo era mais importante do que ela.
Servia, oferecia, guarnecia.
Era estepe para as mais diversas dores.
Só era lembrada na necessidade,
E tão logo que ela se fosse,
Retornava a sua condição de nada.
Morreu na rotina da tarde,
Sem uma lágrima de surpresa
Ou um suspiro de dor.

quinta-feira, 2 de abril de 2015

FORÇA

Gosto da quantidade,
Do exagero.
Sou prolíxa.
Meus gestos são amplos
E minha voz, alta.
Rio com frequência
E choro aos soluços.
A intensidade me condena
A aparecer.
Sempre e mais.
Não desgosto.