quarta-feira, 1 de outubro de 2014

ADVÉRBIOS

Com os olhos voltados para trás
Partiu em frente.
Suspirou além
Quando constatou 
Que não havia mais nada aquém.
Acima só o sol,
Abaixo, a areia.
Deitou-se ali
Ficou na espera
Do algo a mais
Que certamente
Chegaria em breve,
Muito breve.

sábado, 27 de setembro de 2014

PRONTA

Tento adivinhar o teu toque.
Busco ouvir tua respiração
Perto, muito perto da minha nuca.
Teu calor, em ondas, 
Quero sentir no arrepio da minha pele.
O sabor do teu corpo
Imagino saber com detalhes
De gourmet.
Estou pronta viste?
Só falta chegares.
Te espero.
Vem.

domingo, 21 de setembro de 2014

PONTO

Com um sopro
Desvendou os olhos.
Os cílios encarregaram-se
De desfazer o resto.
Viveu para a cor,
Para o som,
Para sensações.
Plena, flutuou na graça
Das antigas novidades
Irradiando curiosos arrepios.
Ela havia chegado para ocupar
O lugar que jamais imaginara lhe pertencer,
Mas que ao vê-la,
Imediatamente encaixou-se nos seus contornos.
Ele, um misto de surpresa e encanto,
Espantou as antigas dúvidas
E aquiesceu à certeza
Que, de fato, sempre soube:
No dia da chegada
Não existiriam mais partidas.
Entregou-se sem medos
Ao ponto final.

quinta-feira, 18 de setembro de 2014

LUTA

Mergulhou na atmosfera noir
Dos corpos nus.
Percorreu o ambiente pegajoso do suor
Gerado pelo pouco espaço
Enquanto mãos e pernas se cruzavam.
Sentia cabelos e pêlos
Com ojeriza.
Irrespirável.
Queria acordar, mas resistia.
A sensação frenética opoē-se
À razão estética e vence.
Sorri no desespero,
Ainda bem.

terça-feira, 16 de setembro de 2014

RACHADURAS

O vidro rachado da porta
Permitia que as lembranças
Voltassem fortes.
A última vez foi perdida,
Sabia disso,
Deu as costas e seguiu
Na direção oposta.
De lá, nenhuma rachadura teria 
Mais importância.

segunda-feira, 15 de setembro de 2014

ERROS

Erro.
Hoje, ontem ou amanhã,
Erro, errei, errarei.
O erro é uma das coisas certas da vida.
A cada tropeço,
Caio, choro, sofro escoriações.
Continuo errando,
Não aprendo o que não se pode aprender.
Não aprendo o que não quero aprender.
Não aprendo o que não vale aprender.
Vivo.


domingo, 14 de setembro de 2014

PROPAGANDA

Garganta trancada,
Vontade de chorar,
Depressão chegando?
Sol, mar e céu azul,
Eficaz para todos os males.
Experimenta!

sábado, 13 de setembro de 2014

quinta-feira, 11 de setembro de 2014

PARTIDA

Com o sol nos pêlos,
Floresceu no final da primavera.
A graça tomou conta dos seus gestos,
O vento, de seus longos cabelos
E a lua, da sua mente.
Nascera, finalmente.
Deveria se apressar,
O oceano é largo
E não sabia precisar com exatidão
Quantos passos a distanciavam dele...

quarta-feira, 10 de setembro de 2014

GUERRA

A palidez deu lugar à cor.
Era enfática,
Gostava do destaque.
E, assim, vibrando nos tons fortes,
Iniciou o percurso.
Aquele seria um dia difícil,
Mas de imprescindível enfrentamento.

terça-feira, 9 de setembro de 2014

segunda-feira, 8 de setembro de 2014

PAPEIS

Do jorro nasceu a vida
Que correu insandecidamente
Pelos estreitos corredores
Úmidos e escorregadios.
Alojou-se no aconchego
Da sua metade
E lá ficou.
Esperou, esperou 
E se fez completo.
Como obra acabada 
Adentrou no mundo.
Encantou, cresceu, viveu,
Morreu.
Morreu no exato momento
Em que, cansado do velho papel,
Idealizava uma nova estreia
Para breve,
Muito breve.

sábado, 6 de setembro de 2014

FANTASMA

Entendeu-se em solidão.
Buscou a forma mais harmoniosa,
Meticulosamente planejada,
E ocupou o centro da sala
Em sua cadeira de alto espaldar.
Mãos no colo,
Cabelos alinhados,
Vestido impecável,
Olhar vago.
O processo foi lento.
Ao final, já como retrato
Em preto e branco,
Foi descoberta pelos olhos curiosos,
Jazendo no chão do ambiente.
Recolhida com cuidado,
Foi encerrada nas quatro arestas
Do pequeno quadro 
Pendurado na parede.
Seguiu, soberana de si,
A assombrar aqueles que
Teimavam em se julgar
Felizes.

quinta-feira, 4 de setembro de 2014

CORAGEM

Perto da escada, pensava.
Tinha dúvidas sobre qual seria
O degrau mais acertado,
Se deveria, ou não, apoiar-se
No corrimão,
Se a subida deveria ser rápida 
Ou vagarosa.
Observava todos
Que por ela passavam rumo ao topo.
Nenhum lhe parecia de todo correto.
Um, muito lento, acabava sentando-se,
Desanimado com a distância que
Ainda restava percorrer.
Outro, muito impaciente, 
Atropelava os degraus, caindo sempre,
Mas seguia no intento.
Mais outro que, com passadas tão firmes,
Acabava por romper os degraus,
O que o levava a refletir se seria para ele
Essa dura tarefa.
Perto da escada, pensava,
Sem se importar com a vida escoando
No entorno.
Perto da escada, pensava,
Atordoando o resto de coragem
Que insistia em habitar seu coração.

quarta-feira, 3 de setembro de 2014

TRAJETÓRIA

Fio a fio
Teceu seu ideal.
Cobriu-se com ele
E saiu espanando as teias
Iludidas do seu poder
De embaraço.
Foi vista, pela última vez,
Cruzando a barreira da luz
Linda!
Em pleno uso do raro poder
Conferido apenas aos escolhidos,
Obstinados e teimosos,
Senhores de si.

terça-feira, 2 de setembro de 2014

FOI

Decidiu ver o mundo de ponta cabeça.
Deitou na grama erguendo os pés ao alto.
Calçou as pantufas de nuvem e começou a andar.
Deslizou pelo céu recolhendo os perfumes da terra.
Cobriu os cabelos de mar adornando-os
Com as mais coloridas flores.
Refrescou o corpo com a brisa vital da primavera.
Pisou no sol e tropeçou na lua.
Seguiu o caminho das estrelas
Rumo ao infinito.
Foi feliz.

segunda-feira, 1 de setembro de 2014

sábado, 30 de agosto de 2014

DEVANEIO

Em voo rasante surgiu sobre o mar.
Mergulhos profundos lançou-se a dar.
Molhada, cansada, na praia feliz,
Fundiu-se c'a areia afinal, meretriz.

quinta-feira, 28 de agosto de 2014

DEPRESSÃO

Do bum criou-se o caos.
Notícias rodavam
Naquilo que havia sido,
Um dia,
Sua cabeça.
Queria submergir 
A todo custo.
A superfície não era mais
Para ele.
Enterrou-se, como pode,
No lodo do cotidiano.
Quieto, ficou a espera do pior.
O melhor jamais retornaria,
Jamais...

quarta-feira, 27 de agosto de 2014

CORES

Na dança das cores o vermelho gargalha.
O azul, zen e discreto, espalha seu ar blasé pelo entorno.
Cheio de vida, o amarelo ilumina todos os pontos
Em que o preto, carrancudo, insistia em encobrir.
O branco, coberto de paz, tenta organizar a festa.
Desliza, com seu manto luminoso, e vai recolhendo,
Uma a uma das agitadas amigas coloridas
Recolhe-se à lua,
Até o próximo amanhecer.

terça-feira, 26 de agosto de 2014

HÁVERÁ?

As palavras tentam
Acalantar o vazio.
Esforçam-se, ao máximo,
Para colorir as almas distantes.
Os corpos,embalados na dança
Ditada por elas,
Ficam ora embevecidos,
Ora elétricos 
Obedecendo
Aos diversos pulsares contrários
Que pairam nos ares e sobre os mares...
Enquanto isso ela vive,
Enquanto isso ele vive,
Sem expectativas mais.

segunda-feira, 25 de agosto de 2014

CORTES

Quero te acarinhar,
Sei que não posso.
Sonho passear contigo.
Sei que não posso.
Gostaria de apenas sentar,
Quietinha, e te ouvir.
Sei que não posso.
Realidades distantes,
Vidas mutantes,
Destinos errantes.
Uma pena, mas...
Sei que não posso.

sábado, 23 de agosto de 2014

sexta-feira, 22 de agosto de 2014

TERNO

Buscava o infinito.
Percorreu rios, ruas e ares
Avistou, ao longe, 
Algo que parecia ser sua sombra.
Entusiasmou-se.
Intensificou a caminhada,
Não poderia perdê-lo de vista!
A perseguição 
Brincou os minutos,
Viveu os dias, 
Atravessou os meses,
Arrastou os anos...
Exausta parou de súbito.
Sentou-se entre o desespero
E o cansaço.
Adormeceu sem perceber
Que o infinito, enternecido,
A tomara nos braços
E, neste exato momento,
Embalava-a ao som
Da mais bela
Canção de ninar.

quinta-feira, 21 de agosto de 2014

IMPORTANTE

Feliz, na ponta dos pés dança!
Flutua por entre a cortina de pétalas
E termina em um lindo arabesque
No meio do lago.
Ama-se mais do que tudo!
E é somente isso que realmente importa.

quarta-feira, 20 de agosto de 2014

COMEÇO

No cume do telhado
Colhia estrelas.
Escolhia ora a maior,
Ora a mais brilhante,
Ora aquela que tinha dificuldades
Em enxergar.
Guardava-as cuidadosamente
Na cesta de vime
Coberta pelo lenço de cambraia bordada.
Encerrada a tarefa correu
Para o estreito caminho
Salpicando-as, aqui e ali.
Deveria se apressar,
Sabia que ele logo chegaria.
Despiu-se de todos ornamentos 
E colocou-se no centro da tela,
No exato momento em que a porta bateu.
Tremeu quando sentiu o foco dos olhos curiosos
Observando aquele quadro,
Cheio de luz própria, que não estava
Na parede quando tinha saído pela manhã.
Ambos sorriram o que talvez se tornasse
Um novo começo.

terça-feira, 19 de agosto de 2014

ESPERANÇA

A neblina densa
Bloqueia minha visão.
Fico aflita para tentar vencê-la.
Ando, corro, fujo
Naquele interminável branco,
Que parece se divertir
Com meu desespero.
"Quero sair!" - grito sem resposta.
Nem o eco ousa tamanha imersão.
Cansada de lutar, deponho as armas.
Quem sabe com a minha desistência
Ela se desinteresse e vá?
Encolho-me, como posso no canto,
No afã de não ser percebida.
Ela irá.
Acredito sem dúvidas.
Em algum momento,
Ela irá.

segunda-feira, 18 de agosto de 2014

GOLPE

Quando deu por si
Havia apagado.
No breu do ambiente,
Tentou, em vão,
Retomar a luz levada.
Não sabia que direção tomar,
Não sentia mais o impulso
Necessário à recomposição
Do perdido.
Pensou em um plano.
Deixou-se ficar imóvel e muda.
Poderia valer-se do elemento surpresa
E recuperar o que lhe foi surrupiado.
Para tanto, precisava que acreditassem
Que havia desistido para sempre.
Sorriu internamente quando 
Percebeu que ele se aproximava 
Curioso...

domingo, 17 de agosto de 2014

SEDUZÍVEL

Fico na espera da imagem mais bela.
Observo com cuidado todos os ângulos.
Cada vez que me decido por um,
Outro exibe mais os seus encantos
E acaba arrebatando-me o olhar.
Nova verificação se impõe,
E mais uma,
E mais outras.
Suspiro diante da constatação
Que sempre assim será.
Fazer o quê?
Sou seduzível...

sábado, 16 de agosto de 2014

BONECO

Pensas que me vês.
Imaginas que me conheces.
Divirto-me com tuas certezas
E conclusões absolutas
A meu respeito.
Sorrio docemente e digo:
"Isso meu querido! 
Como aprecio a tua perspicácia!"
Controlo-me para não gargalhar.
Nesse caso, 
Sempre será melhor 
A ignorância! 
Sempre...

sexta-feira, 15 de agosto de 2014

TARDE

Da cor dos telhados,
Surgiram os cabelos.
O azul das águas 
Transmutou-se em olhos.
A boca pintou-se com o carmim do fogo
E do moreno das cascas das árvores
Fez-se o corpo.
Concretizou-se plena e fresca
Salpicada de orvalho.
Seguiu bela rumo ao ocaso.
Tarde mansa,
Tarde pura,
Tarde...

quinta-feira, 14 de agosto de 2014

PLANO PERFEITO

Dissimula teus olhos,
Que eu dissimulo meu sorriso.
Esconde teus planos,
Que eu escondo meus desejos.
Falseia tuas palavras
Que eu falseio minha compreensão.
Finge o teu descaso
Que eu finjo a minha indiferença.
Segue teu caminho
Que eu sigo a minha rota.
Ninguém se aperceberá quando
Desaparecermos, 
Praticamente indiferentes,
Na barulhenta multidão...

quarta-feira, 13 de agosto de 2014

DESDÉM

Na ponta do caco
Ainda conseguia ver
O que havia restado
Da antiga imagem.
Arrumou-se como pode
Escolheu, no fundo mofado
Da caixa cinza,
Guardada com desleixo
Embaixo da cama,
O menos roto sorriso,
Envergou-o com decisão.
Aprumou-se.
Saiu da maneira que estava.
Leve, flutuou por entre os véus.
Não olhou para trás.
Agora, só existiria o futuro.
Ainda bem!
Passado e presente,
Humiliados,
Choraram com seu desdém.